A cura dos cegos do Coronavírus
Sermão do 4º.
Domingo da Quaresma (Ano A) - 22 de março de 2020
Rev. Daniel do Amaral – IPU de Brasília

João 9 –
versão NAA
A cura de um cego
de nascença
1 Enquanto Jesus
caminhava, viu um homem cego de nascença. 2 E os seus
discípulos perguntaram:
— Mestre, quem
pecou para que este homem nascesse cego? Ele ou os pais dele?
3 Jesus respondeu:
— Nem ele pecou,
nem os pais dele; mas isso aconteceu para que nele se manifestem as obras de
Deus.4 É necessário que
façamos as obras daquele que me enviou enquanto é dia; a noite vem, quando
ninguém pode trabalhar. 5 Enquanto estou no
mundo, sou a luz do mundo.
6 Depois de dizer
isso, Jesus cuspiu na terra, fez lama com a saliva e com a lama untou os olhos
do cego. 7 Então disse ao
cego:
— Vá lavar-se no
tanque de Siloé.
Siloé quer dizer
“Enviado”.
O cego foi,
lavou-se e voltou vendo. 8 Então os vizinhos e
os que antes o conheciam de vista, como mendigo, perguntavam:
— Não é este o que
ficava sentado pedindo esmolas?
9 Uns diziam:
— É ele.
Outros:
— Não, mas se parece
com ele.
O homem dizia:
— Sou eu.
10 Então lhe
perguntaram:
— Como foram
abertos os seus olhos?
11 Ele respondeu:
— O homem chamado
Jesus fez lama, passou nos meus olhos e disse: “Vá ao tanque de Siloé e
lave-se.” Então fui, lavei-me e estou vendo.
12 Eles perguntaram:
— Onde está ele?
Respondeu:
— Não sei.
Estamos vivendo um momento inédito na história do mundo
moderno.
A última vez que uma doença afetou o mundo em escala mundial foi,
provavelmente, a chamada Gripe Espanhola, que não era espanhola, começou nos
Estados Unidos, no início do século XX.
Em fevereiro de 1919, aqui no Brasil, foram fechadas escolas,
estabelecimentos comerciais, cinemas, cabarés, bares, festas populares e
partidas esportivas foram proibidas, tudo isso para evitar a aglomeração de
pessoas. Isto, pois, as atividades que exigiam maior contato interpessoal
aumentavam as chances de contaminação. Foram meses em que a vida social
limitou-se ao máximo. Isso há exatos 101 anos.
Qualquer semelhança...
Outra coisa que aconteceu, na época, que agitou o meio político,
foi a contaminação do Presidente da República, Rodrigues Alves, que acabou
falecendo por causa da doença, ainda no início do seu segundo mandato. Minha avó, dona Clotilde, contava que muitos
pastores e crentes evangélicos morreram no Rio de Janeiro, e até algumas
igrejas fecharam em 1919.
A pandemia aconteceu depois da 1ª. Guerra Mundial, que matou 8
milhões de pessoas, a maioria soldados com seus cadáveres deixados nos campos
de batalha. As condições sanitárias das
cidades eram péssimas, e não havia conhecimento científico suficiente para
combater o vírus.
O vírus causador dessa pandemia foi o
H1N1, que voltaria depois de 90 anos, em 2009, sob a forma de gripe aviária,
mas aí o mundo estava bem mais preparado. E a mesma coisa está acontecendo agora com o
vírus, o Coronavírus, da doença COVID-19.
No texto do Evangelho de hoje vemos a história de um homem cego de
nascença. Jesus estava caminhando por
Jerusalém e o encontrou pela rua. Provavelmente ele estava na rua pedindo esmolas,
porque não tinha condição de trabalhar.
Quando os discípulos o encontram, logo fazem uma pergunta para Jesus:
— Mestre, quem pecou para que este homem nascesse
cego? Ele ou os pais dele?
Quando alguém sofre uma condição ruim, uma doença, uma situação, a tendência
das pessoas é a mesma dos discípulos.
Dois mil anos se passaram e nossa forma de pensar mudou muito
pouco: até prova em contrário, a culpa é
da vítima. Alguma coisa ela fez para
merecer. Esse era o senso comum da religião de Israel, e funciona até hoje.
Porém, Jesus quebra essa lógica.
É nessa hora que Jesus, em vez de se preocupar em explicar a origem da situação
do cego, ele vai lá e simplesmente resolve.
Ele cura aquele homem, sem recurso nenhum além da própria saliva e da
terra.
Porque, a partir de Jesus, a nossa leitura da realidade é outra. Jesus
precisa fazer diferença na nossa leitura da Palavra de Deus, porque o tempo da
Lei passou, e nós estamos vivendo o tempo da Graça, o tempo do Evangelho.
Ele toca os olhos daquele homem, e manda que ele vá se lavar em um
chafariz, em uma fonte de Jerusalém. O homem
vai lá, lava o rosto, e começa a enxergar!
As pessoas que conheciam o cego, ao vê-lo enxergando, começam a perguntar
quem o tinha curado da cegueira. Ele só
sabe que o homem se chamava Jesus, mas ele não sabe onde Jesus está. E mesmo que encontrasse Jesus pela rua, não
ia reconhecer, porque ele não tinha visto Jesus, ele só começou a enxergar
depois que lavou os olhos.
E outra coisa: aquilo que era para ser uma bênção na sua vida,
acaba sendo uma grande dor de cabeça. Os
fariseus começam a interrogar o rapaz, vão até a sua casa perturbar os seus
pais, e ainda fazem uma ameaça de morte.
Quando eles dizem ao rapaz a frase Dá glória a Deus, ele deve ter
tremido. Porque falar essa frase era uma exigência feita aos condenados. Quando uma pessoa ia ser apedrejada eles
mandavam dar glória a Deus, e depois mandavam pedradas.
Moral da história: enquanto ele estava cego, pedindo esmolas, jogado
no meio da rua, ninguém se preocupava com ele.
Depois que foi curado, passou a enxergar, ganhou autonomia, teve sua
vida transformada, isso incomodou muita gente, principalmente os
religiosos. Não é curioso?
A situação que estamos vivendo hoje, com essa pandemia do Coronavirus,
deve nos fazer refletir, principalmente a partir desse texto em que nós estamos
meditando nesta noite.
Boa parte do povo cristão no Brasil está preocupado com aquilo que
causou a pandemia. Uns põem culpa no
governo chinês. Chegam até a chamar o Coronavírus
de vírus chinês. Mas a gente olha no
microscópio e não vê olhinho puxado no vírus não...
Outros põem a culpa no pangolim, um bichinho que tem lá no Oriente,
mistura de tatu com tamanduá. Dizem que
foi dele que veio o coronavírus. Só que, se ninguém estivesse caçando esse bicho,
ninguém tinha pego o vírus. Então a culpa
é dos caçadores, que estão ameaçando essa espécie de extinção.
Outros preferem uma leitura moral teológica: a culpa é do pecado da humanidade.
De fato, a humanidade tem pecado muito. Mas não é de agora. E essa não é a única
doença que tem assolado a humanidade recentemente. Há outras, e não é preciso
ir muito longe. Aqui no Brasil o sarampo
e a dengue têm matado mais do que o Coronavírus. Só que o coronavírus é importado, veio de
fora, chegou de avião, na bagagem de pessoas de bom poder aquisitivo. Pelo menos,
gente que tinha acesso a viajar para o exterior. O coronavírus não veio com as domésticas,
veio com os patrões.
Enfim, eu acho que é melhor a gente fazer
como Jesus: se preocupara mais com a cura da doença do que com o motivo da sua
existência.
Uma coisa que me chama atenção na COVID-19 é a coincidência do
período mais grave dessa doença com a Quaresma.
Vocês já tinham reparado nisso?
Historicamente, a Quaresma sempre foi uma estação litúrgica de recolhimento,
de quietude, de silêncio etc. Foi por
isso que inventaram o Carnaval. Era a última festa popular permitida antes da
Quaresma.
Com o passar do tempo, ninguém passou a ligar mais para a Quaresma,
só aqueles religiosos mais litúrgicos.
E, sem nenhum aviso, acontece essa situação que nos prende em casa,
na companhia da nossa família, dos nossos pais, dos nossos irmãos de sangue, enfim,
de pessoas que a gente tinha trocado pelos amigos, pelos colegas de trabalho,
pelos parceiros afetivos, enfim, somos empurrados para dentro de casa, em um
mundo que sempre nos puxa para fora de casa, porque fora de casa acontece o
consumo, o lazer, a viagem, o uso dos serviços públicos.
Trata-se, então, de um vírus anticapitalista, que está arrepiando
os cabelos do sistema produtivo, desde as gigantes da tecnologia, as maiores
empresas do mundo, até o dono do mercadinho da esquina.
Não é hora se sermos oportunistas, de dizer que esse vírus não nos
afeta porque somos um povo escolhido.
Não existe povo escolhido, isso nós lemos no Novo Testamento.
Mas existe um povo que sabe buscar a Deus nesses momentos e,
sobretudo, sabe servir a Deus. É a hora
de nos colocarmos à disposição de quem precisa de nós – e muita gente precisa
nessa hora. É a hora de espalharmos
mensagens convidando a ler a Palavra de Deus, a ter um tempo consigo mesmo e
com Deus, já que não existe mais a desculpa da vida agitada, do mundo
corporativo, das demandas das crianças, enfim.
É a hora manter nossas igrejas fechadas e entrarmos em nossos quartos para
falar com Deus, sem muito alarde.
O cego da fonte de Siloé só foi descobrir quem era Jesus mais
tarde. Jesus não saiu fazendo propaganda
da cura que havia realizado. Mas ele se
apresentou àquele homem, e assim ele o conheceu.
Nós temos a autoridade de abrir os olhos das pessoas, para que elas
possam finalmente ver Jesus.
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