A CADEIRA DE MOISÉS
Sermão do 31º. Domingo do Tempo Comum – Ano A
Domingo, 5 de novembro
de 2017
Mateus 23:1-12 ARA
Jesus censura os escribas e os fariseus
Mc 12.38-40; Lc
11.37-52; 20.45-47
1 Então, falou Jesus às
multidões e aos seus discípulos:
2 Na cadeira de Moisés,
se assentaram os escribas e os fariseus.
3 Fazei e guardai, pois,
tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque
dizem e não fazem.
4 Atam fardos pesados [e
difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles
mesmos nem com o dedo querem movê-los.
5 Praticam, porém, todas
as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas
franjas.
6 Amam o primeiro lugar
nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, 7 as saudações nas
praças e o serem chamados mestres pelos homens.
8 Vós, porém, não sereis
chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos.
9 A ninguém sobre a
terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus.
10 Nem sereis chamados
guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo.
11 Mas o maior dentre vós será vosso
servo.
12 Quem a si mesmo se
exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.
A religião é considerada uma coisa importante na vida
das pessoas e na sociedade. É feita para
organizar a sociedade, e para frear as forças da barbárie. Sem religião, as
pessoas saem pelo mundo fazendo “a vontade do corpo”, de forma descontrolada, e
a sociedade vira um caos.
Assim, a religião foi usada para impor uma ordem na
vida das pessoas. Em muitos casos, os dirigentes da sociedade eram os líderes
da religião, ou pessoas aprovadas pelos religiosos. Em muitos países isso acontece até hoje,
especialmente nos países de maioria muçulmana.
A Europa era assim até não muito tempo atrás.
A Reforma Protestante, que acaba de completar 500
anos, foi quem começou a questionar essa relação entre o poder político e a
liderança religiosa.
Na época que Mateus escreveu seu evangelho, o povo da
Judeia era governado por três lideranças:
o procurador romano, o rei da Judeia, e os religiosos. A vida do povo era controlada por essas três
forças. Cada uma tinha seu campo de atuação, mas o dia a dia das pessoas era
afetado por todas elas.
Os romanos cobravam impostos e não admitiam que seu
poder fosse contestado. O rei da Judeia
governava com seus impostos e suas leis.
E os líderes religiosos – fariseus, escribas, saduceus, sacerdotes, etc.
– impunham à população uma série de leis religiosas que eram impossíveis de serem
cumpridas com perfeição. Nem Jesus Cristo cumpriu essas leis todas, e diversas
vezes foi flagrado pelos fariseus por estar praticando alguma coisa condenada
pelas leis que eles tinham formulado.
Por que todas essas leis? A princípio, o objetivo era considerado meritório.
Os judeus, quando voltaram do exílio da Babilônia,
passaram a viver em guerra com as forças da civilização grega. Até um porco foi
sacrificado no templo de Jerusalém.
A juventude judia começava a
praticar esportes olímpicos, que eram eventos em honra dos deuses gregos. Havia
uma helenização da sociedade judaica. Depois vieram os romanos e se impuseram
pela força militar. Na frente do templo
de Jerusalém havia uma estátua de uma águia romana para mostrar quem mandava em
Jerusalém.
Então, como forma de resistência, os escribas, os
sacerdotes e os fariseus criaram um sistema de regras, baseado na Lei de
Moisés, que serviam para mostrar quem eram os verdadeiros judeus e quem não
era. Essa passou a ser a grande
finalidade da religião judaica: servir
ao nacionalismo da Judeia e resistir à dominação romana.
Algo que não cabia em um grupo de privilegiados, de
homens que conheciam a língua hebraica e os detalhes da Lei de Israel.
Ficavam de fora os romanos, os gregos, os samaritanos,
os outros povos que viviam na Palestina, e os pobres analfabetos, mesmo que
fossem descendentes de Abraão, porque não sabiam ler os livros da Lei. Os
judeus que arrecadavam impostos para os romanos, então, eram abominados (os
publicanos). As mulheres, também, não
tinham lugar nessa religião, porque os homens até agradeciam a Deus não terem
nascido como mulher... Era uma
religião de exclusão.
Quando Jesus vem, ele vira tudo isso de cabeça para
baixo. Porque o propósito de Jesus não é
defender o nacionalismo judaico, a resistência aos gregos e aos romanos. Jesus quer resgatar o espírito da relação com
o Deus de Israel, criando uma nova nação, sem fronteiras, sem esses limites
culturais e nacionalistas.
Na cadeira de Moisés assentaram-se os escribas e os
fariseus.
A cadeira tem um simbolismo: o trono, a poltrona, a matéria da faculdade
(cátedra). Até aqui na igreja tem
cadeiras especiais para pastores e presbíteros.
O interessante é que Jesus não se assentou na cadeira
de Moisés. Não precisava, é
verdade... Mas para as pessoas de seu
tempo, teria um peso importante se ele tivesse assumido essa atitude.
O problema da igreja de hoje é que muitos pastores e
líderes evangélicos se assentaram na cadeira, não de Moisés, mas na de Jesus
mesmo. Criaram uma cadeira para
Jesus. E, a partir dessa cadeira, querem
dizer para o povo de Deus tudo que deve ou não deve fazer. Sobretudo, em que candidatos votar nas
eleições.
São comportamentos muito parecidos com o dos escribas
e fariseus,
5 Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem
vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas
franjas.
6 Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas
sinagogas, 7 as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos
homens.
Em comum com os escribas e fariseus, essas lideranças
evangélicas têm esse apego pelo reconhecimento público. Comportam-se como
celebridades. Ostentam um estilo de vida de prosperidade. E se pronunciam com um linguajar religioso,
voltado principalmente para separar os evangélicos do resto da população. E querem impor à sociedade um estilo de vida
que consideram como evangélico. É uma situação muito parecida com aquela que
nós vemos no tempo de Jesus. Em nome da pureza da fé judaica, os escribas e
fariseus, sentados na cadeira de Moisés (onde Jesus nunca quis sentar) eles
ditavam as regras para manter na sociedade uma confraria de iluminados,
escolhidos por Deus, para aparecerem como os melhores.
Uma outra característica desse grupo é o da
incoerência. Porque falam uma série de
coisas mas fazem outras muito diferentes.
A gente não deve generalizar, mas pensemos em quantos políticos
evangélicos – muitos deles pastores – estão sendo investigados (ou já foram até
condenados) por corrupção, por receber propinas, dinheiro de origem ilícita,
etc. Aqui no DF tivemos até um político
evangélico que recebeu propina e fez uma oração fervorosa de gratidão a Deus e ao
deputado que lhe repassou o dinheiro. Tudo
isso foi filmado.
Aqui no Brasil, por uma série de razões, os pastores
protestantes não adotaram a vestimenta tradicional das igrejas de origem, como
a toga preta, a camisa clerical etc. Optaram por uma roupa típica de homens de
negócio e de políticos: o terno e a gravata.
Coisas associadas ao dinheiro e ao poder.
São lideranças que falam bonito, têm o dom da palavra,
afirmam defender a família e a sociedade contra as forças do mal, em nome da
religião. No entanto, o que Jesus
recomenda e denuncia, conforme está no texto da leitura do evangelho, é:
3 Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não
os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem.
Muitas vezes são pessoas
capazes de produzir boas mensagens, mas a sua prática pode ir mesmo na direção
contrária. Porque muitos dos valores
que defendem são financiados, são de interesse de grupos que pagam para dizerem
o que dizem.
Agora, uma observação muito importante. Eu estou aqui
denunciando e condenando um tipo de liderança evangélica, de diversas igrejas,
mas eu tenho muita consciência de uma coisa:
nenhum de nós está livre de cair na mesma armadilha. De sentar na tal cadeira de Moisés e se
considerar melhor do que os outros, e, em nome do evangelho, criticar e
condenar aquilo que outras pessoas pensam e fazem.
Estamos, muitas vezes, dispostos a apontar os erros e
os pecados dos outros, mas, como Jesus adverte
4 Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os
ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.
Esse sucesso por certas lideranças prósperas e
poderosas é apresentado como um modelo ser imitado. E aqui está o peso que é colocado sobre aqueles
que o seguem. Se você não reproduz esse
modelo, deve ser por falta de fé, ou por maldição, ou por infidelidade na
contribuição financeira, etc.
Não podemos ler esse texto apenas condenando
terceiros. Pregadores autoritários,
infiéis ao chamado de Jesus. Precisamos
ler esse texto pensando em nós mesmos.
Precisamos olhar em que cadeira nos assentamos, se não é essa mesma
cadeira de Moisés onde escribas e fariseus se assentaram.
O que Jesus nos chama a fazer é
ter a disposição de ajudar aqueles que o procuram a levar o fardo de suas
vidas. O seu passado, seus conflitos,
suas dúvidas, para responderem ao convite de Jesus de serem libertos. Jesus não nos chama para sermos ricos. Jesus nos chama para sermos livres!
De modo geral, é muito importante a gente aprender a
ler a Bíblia para consolar e alegrar o nosso coração. Porém, precisamos aprender a ler a Bíblia não
só PARA nós, mas CONTRA nós. Para que
ela nos aponte novos caminhos.
Qual o modelo de igreja que Jesus propõe? Ele mesmo declara:
8 Vós, porém, não sereis
chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos.
9 A ninguém sobre a
terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus.
10 Nem sereis chamados
guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo.
11 Mas o maior dentre vós será vosso
servo.
12 Quem a si mesmo se
exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.
A Igreja de que o mundo precisa – e essa é uma
observação muito importante nesses 500 anos de Reforma – é aquela que ajude as
pessoas a suportar as suas cargas, e não aquela que sobrecarregue as pessoas
para depois vir cobrar delas cargas insuportáveis.
Uma igreja cujas lideranças se levantem da cadeira de
Moisés e saiam pelo mundo pregando o verdadeiro evangelho libertador de Jesus
Cristo.
FIM
